Crítica O Estranho Que Nós Amamos

O estranho que nós amamos

Um filme sobre repressão feminina. Esta á premissa básica de “O Estranho que nós amamos”, de Sofia Copolla. Baseado no romance homônimo de Thomas P. Cullinan, lançado em 1966, a obra também ganha filme, no ano de 1971, dirigido por Don Siegel. A trama conta a história de um soldado ianque, John Mc Burney (Colin Farrell), próximo do fim da Guerra Civil Americana. Ferido, ele é encontrado por uma garota, Amy (Oona Laurence). Ela o leva até uma escola feminina sulista, lá recebe os primeiros socorros da diretora do lugar, Martha Farnsworth (Nicole Kidman).

Uma casa feminina

Ao chegar na casa, onde funciona uma escola, somos apresentados a seis personagens femininas muito distintas. Martha é uma mulher firme, que precisa fazer decisões difíceis, tanto para sobreviver, quanto para proteger a escola e as outras. A professora, Edwina Dabney (Kirsten Dunst), é uma mulher mais reservada, culta e romântica. Das crianças, Amy que encontrou o soldado, uma criança corajosa e que se interessa bastante pelas plantas, jardinagem e afins. As outras duas meninas, Jane (Angourie Rice) e Marie (Addison Riecke), são crianças com talentos musicas e bastante curiosas. E a adolescente e bela Alicia, maravilhosamente interpretada por Elle Fanning (De O Demônio de Neon, 2016).

O estranho que nós amamos

A medida que o soldado fica na escola, até sua recuperação. Vamos percebendo mudanças no comportamento de cada mulher e garota. Martha, desde do inicio, precisou lidar com dilemas morais, ao acolher o soldado. Primeiro por ser homem, segundo por estar acolhendo um inimigo e os perigos que podem estar envolvidos em cuidar de um desconhecido. Entre razão, emoção e religião, vamos percebendo, aos poucos, que a diretora acaba se perdendo nas suas escolhas, tentando o máximo possível, buscar uma saída coerente em suas ações.

O estranho que nós amamos

O interesse simultâneo de Alicia e a professora Edwina pelo soldado, é um dos pontos chave da trama. Jogo de interesses começam a serem revelados, até mesmo das crianças, que acabam tendo uma relação paternal com John.Com um olhar mais atento, também é possível contextualizar as reações dos personagens, que sob forte clima de tensão e guerra, foram fortemente afetados. Com a chegada de John, estruturas começaram a ruir, e os desejos falaram mais alto. Os acontecimentos que se seguiram, assim como as cenas finais, intriga e revela o ponto de vista escolhido da diretora, para contar uma história tão delicada.

Um olhar sensível

Coppola precisou fazer difíceis escolhas para interpretar o livro de Cullinan. Com um orçamento não tão alto e vinte e seis dias para gravar, foi preciso fazer cortes. Personagens foram retirados, como por exemplo, a ultima escrava não vendida, Mattie, fora outros coadjuvantes, que fizeram parte de situações igualmente excluídas. Portanto, fica claro que Coppola trouxe uma releitura mais íntima e crítica, colocando em perspectiva, o olhar das mulheres na história. Uma trama contada pelas mulheres sobre o que aconteceu,  explorando o universo feminino.

O estranho que nós amamos

Diante disso, estamos falando de um posicionamento feminista, que sob as lentes da diretora, ganha voz e traz para o cinema, mais uma importante obra social crítica. Uma história sobre um passado tão presente, o filme termina com a sensação de um segredo contado. Ao contrário das outras obras, a história não é contada pelo ponto de vista do soldado, fazendo cair toda culpa do que aconteceu nas mulheres, mas sim, o contrário. Entendemos por fim, que as escolhas da diretora, foram sim plausíveis, afim de ressaltar a questão do papel da mulher na sociedade, seus dramas e silêncios.

Obviamente, que tais escolhas, resultaram em cortes. Não sendo possível, por exemplo, abarcar o drama da mulher negra na história, a personagem escrava, Mattie. Pois, daria um filme por si só, sobre outras questões igualmente importantes, como o racismo, e a vulnerabilidade da mulher negra na sociedade. Além de suprimir os dramas das outras personagens, foi preciso para destacar o drama central da trama, com o objetivo de trazer a  história do filme para o recorte de Coppola.

Minimalismo e leveza

A trilha sonora foi produzida pelo namorado da diretora, o francês Thomas Mars (Da banda Phoenix), que produziu as melodias que fizeram parte das cenas. Na ambientação, a casa sulista, de arquitetura neogrega, a Madewood Plantation House, foi também palco para outras produções. Como nos filmes Sister Sister (1982), de John Berry e Woman Called Moses (1978), de Paul Wendkos. A cantora Beyoncé, também usou o cenário para vários clipes do álbum Lemonade.

O estranho que nós amamos

Com uma direção bem ritmada, o filme passa a sensação de tensão o tempo todo. No entanto, quem conhece os filmes de Sofia Coppola, sabe de sua suavidade na hora de escolher tons e detalhes.Com uma paleta de cores leve e neutra, as cenas conseguiram fluir e equilibrar o peso da trama com a produção visual. Assinado por Stacey Battat, o figurino trouxe uma belíssima composição de época, amiga de Coppola, já participou também dos filmes: A Very Murray Christimas, Bling Ring e Somewhere. Battat pesquisou no acervo Metropolitan Museum, vestes e comportamentos de 1860 para dar vida aos personagens.

O resultado final foi uma obra simples porém, sofisticada, com importante tema sobre igualdade de gênero, tão caro a nossa contemporaneidade. Sofia Coppola, é a segunda  cineasta mulher a ganhar o prêmio de melhor direção, no Festival de Cannes 2017, em 70 anos de premiação. Podemos então considerar, O Estranho que Nós Amamos, um filme muito bem produzido, com um discurso inteligente e bem desenvolvido, um remake poderosíssimo sobre o poder feminino. Com certeza, este longa, veio para deixar marcas.

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Autor

Tulio Cross
Tulio Cross

Formando em Museologia na UFMG. Se interessa pelas relações dos museus e cineclubes como espaços emblemáticos e patrimoniais. Ama filmes clássicos, jogos e música. Atualmente flerta com a Filosofia.