Crítica O Demônio de Neon

O Demônio de Neon

Sinopse

Jesse (Elle Fannng) é uma jovem de 18 anos que acaba de chegar a Los Angeles. Dona de uma beleza natural impressionante, ela tenta a sorte como modelo profissional. Após tirar algumas fotos mórbidas para um jovem fotógrafo, é contratada por uma conceituada agência de modelos. Bastante ingênua, ela passa a lidar com o ego sempre inflado das demais modelos e também com a maquiadora Ruby (Jena Malone), que possui intenções ocultas com a jovem.

O bilhete para a entrada do mundo da moda

O Demônio de Neon

O assustador mundo onde Jesse entrará personifica o mito de Narciso

A macabra alegoria de Nicolas Refn em “O Demônio de Neon” abre uma discussão importante sobre a ditadura da moda e da beleza. Mas antes de tudo é preciso entender que apesar de óbvio, o filme traz uma abordagem totalmente estilizada, despreocupada e conceitual. Após o sucesso do premiado “Drive” em Cannes e “Apenas Deus Perdoa” há algumas técnicas que também marcaram o cinema do diretor dinamarquês. Seja a cinematografia marcante de Natasha Braier, a trilha sonora de Cliff Martinez ou o roteiro denso, costumeiro nos filmes de Refn. Sendo assim é inegável reconhecer que a intenção do filme foi ser ousado e provocador. Quase que uma sátira acida e despreocupada, o longa faz um escárnio do mundo fashion com um final um tanto quanto perturbador.  Exibido em Cannes, a exibição teve aplausos e vaias ao mesmo tempo e se consagrou como polêmico e cru.

O Demônio de Neon

A fotografia de abertura representando a morte e renascimento do Ego de Jesse

Jesse (Elle Fanning) é uma garota suburbana, típica puritana e que possui uma beleza considerada de destaque. Ao chegar em Los Angeles, ela busca uma carreira de modelo, mas se depara com o mundo cruel e competitivo da moda. A maquiadora Ruby (Jena Malone), que também ironicamente maquia defuntos, começa introduzindo a “inocente” Jesse no mundo perverso da moda, além de desejar intensamente a garota.

O Demônio de Neon

De forma sutil o filme relata a forma suja que algumas agencias captam suas modelos

O perfil de Jesse é de uma garota bem jovem e do ensino médio, solitária, sem família, sem dinheiro e sem grandes ambições, que vai morar em um quarto de motel em Los Angeles. A moda entra em sua vida como principal motivação de ser uma Top model. De certa forma a crise existencial é estampada em Jesse e como ela vive sua vida, assumida pela própria em um dialogo com o namorado (Karl Gusman), ela relata a sua falta de talento lhe restando apenas sua beleza exterior como qualidade.

O Demônio de Neon

As novas colegas modelos e veteranas de Jesse são a própria inveja e medo encarnados

A iniciação de Jesse ao mundo da moda também é representada não só pelas “vestes virginais” brancas e comportamento tímido, mas também pelo primeiro contato com as outras modelos veteranas, Sarah (Abbey Lee) e Gigi (Bella Heathcote) em uma balada. Quando imersa no novo ambiente, Jesse se depara com questionamentos sexuais que nunca havia se deparado antes, além de um linguajar novo e hostil. Após dançarem juntas em uma escuridão simbólica e simbiótica que engole as garotas (representação da alienação), uma cena se inicia no banheiro recheada de analogias e provocações a Jesse. As veteranas Sarah e Gigi parecem estar super atentas ao seu ambiente e analisam crua e friamente o corpo da novata. A maquiadora ao ressaltar o nome do batom que Gigi estava usando “Run Vermelho”, coloca em xeque a superficialidade da ditadura da beleza e suas estratégias ridículas de marketing. Como os apelidos em sabores de batom para atrair o público feminino.

Mergulhando no ego

O Demônio de Neon

Na cena da triagem, as garotas são tratadas como meras mercadorias

Ao se destacar em um editorial Jesse passa a sofrer transformações e causar descontentamento com suas colegas simbolizando a competição, raiva e inveja. Quando Sarah perde a vaga para uma nova coleção de sucesso para Jesse, ela se tranca em um banheiro e destrói o espelho machucando suas mãos, em uma clara alegoria da mitologia de Narciso e o espelho como a própria imagem trincada. Ao se depreciar para Jesse que se preocupava com seu ferimento na mão, Sarah definitivamente se nivela pela beleza e coloca Jesse em um pedestal como “um sol no inverno”, a partir daí Jesse se transforma completamente e o filme se rompe com a estrutura narrativa literal e parte agora para o onírico. Os símbolos exibidos em sequência agora não são tão claros e o roteiro se perde em detrimento de conceitos e filosofias, irritando alguns e agradando outros.

O Demônio de Neon

A cena do beijo triplicado e o surgimento do Complexo de Superioridade de Jesse

Jesse então se torna aquilo que antes ela desprezava, ela se torna a própria beleza “O demônio de Neon”, o neon pode estar sendo análogo aqui como uma forma efêmera e superficial de existir. No entanto, o demônio dentro de Jesse passa a incomoda-la constantemente. Perturbada, Jesse pede a ajuda de Ruby e vai para sua casa.

O reino da moda e a escuridão da beleza

O Demônio de Neon

A intensa atração de Ruby, revela e simboliza a obsessão por beleza

A mansão que Ruby está cuidando é sombria e fria, onde as cenas mais fortes do filme poderão ser apreciadas. Ruby assume sua paixão devastadora por Jesse e tenta uma investida sexual com a garota que a rejeita e sai para se maquiar. Não suportando a rejeição, Ruby elabora sua frustração em um ato de necrofilia ao transar com uma defunta imaginando Jesse. Em cena quase que simultânea, Jesse se arruma em um quarto, enquanto Ruby se imagina transando com ela em cima de um cadáver feminino. Ao se arrumar Jesse sobe no trampolim de uma piscina vazia, retratando uma alegoria do vazio onde a piscina delineia sua vida em detrimento da imagem. Ao retornar a mansão, Jesse se depara com Gigi, Sarah e Ruby sedentas por ela. Ao persegui-la e mata-la agora elas vão literalmente devorar sua beleza.

O Demônio de Neon

Gigi encarna a busca frenética por cirurgias pelo corpo e a busca infindável pela perfeição

Sem expor a cena do canibalismo, fica claro que elas devoraram o corpo de Jesse ao se banharem com seu sangue em seguida. O efeito da digestão aparece mais rápido primeiro em Ruby, que revela também uma tatuagem, talvez representando uma espécie de culto macabro. Esse detalhe foi muito importante, porque também arremete a agencia onde Jesse entrou como um culto extremo a beleza, beirando a algum tipo de bruxaria canibal ou seita fanática. Após algum tempo Gigi e Sarah começam a apresentar os efeitos colaterais do “demônio de neon” e literalmente vomitam até a morte o corpo de Jesse.

O Demônio de Neon

A beleza como troféu, não importando os meios para consegui-la é a alegoria ultima do filme

O final simbólico esboça o sofrimento e angustia vivida por modelos e pessoas que almejam a beleza á qualquer custo sem medir consequências. Também explora o meio superficial e negligente que um editorial de moda pode ser. A personalidade narcísica de Jesse foi despertada pelo ambiente de extrema competitividade e selvageria, obrigando ela a se transformar em um demônio para se proteger. Com esta obra Nicolas Refn satiriza com humor negro a condição de se trabalhar com a beleza e suas implicações e consequências humanas. Sem didática ou efeito moral algum, o filme ousa provocar e jogar a discussão para o público.