Crítica Drive

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Sinopse

Durante o dia, um misterioso motorista (Ryan Gosling) trabalha como mecânico e dublê automobilista de filmes de Hollywood. À noite, ele se dedica como piloto de fuga para bandidos e mafiosos. Este motorista também é vizinho de Irene (Carey Mulligan), uma garçonete que é casada e tem um filho com Standard Gabriel (Oscar Isaac). Ao aproximar-se da moça e da criança, o motorista começa a criar um forte relacionamento com ambos até a volta de Standard, que acaba de sair da prisão. Percebendo a situação difícil de Standard, o motorista se dispõe a ajudá-lo num assalto que pagaria sua dívida aos criminosos. Só que o golpe dá errado, o que coloca em risco as vidas do motorista, Irene e seu filho.

Um filme sobre violência emocional

Responsável pelo premio de melhor diretor em Cannes, “Drive” se destacou imensamente entre os filmes de Nicolas Winding. Seus filmes sempre nos encanta ou nos perturba com personagens e cenas permeadas de silêncio. Mas não se engane, aqui são os olhos que “falam”. Sim, a maioria das cenas são focadas em troca de olhares e na sensação perceptiva dos próprios personagens, muitas vezes nos ignorando. Mas na verdade eles estão nos dizendo muito de si mesmos. O protagonista (Ryan Gosling) nos é apresentado sem um nome. Sua profissão é dirigir para filmes como dublê e em horas vagas atende ao mundo do crime.

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A família como último recurso para despertar alguma humanidade no protagonista

No entanto aos poucos vamos percebendo que o motorista não é movido pelo dinheiro. Existe algo mais, algo além do material que o move e são suas emoções, sua própria personalidade. Poderia também ser só mais um buscador de adrenalina, mas nosso “herói” também não busca por isso. Na verdade o que o dublê busca é pela própria vida. E isso fica evidente quando ele conhece Irene (Carey Mulligan) e o pequeno Benício (Kaden Leos) a representação de uma família.

Sabemos então a partir daqui que o motorista é como nossa lente, ele vê um mundo movido por dinheiro e ambições que nada fazem sentido para ele. Então ele dirigi em busca de si mesmo. Nessa viagem sem retorno, entendemos tal viagem que pode ser em determinado grau, a nossa própria jornada da vida, uma busca por direção, tema central do filme.

O escorpião está a solta

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O simbolismo por trás do escorpião e a violência incutida nas relações sociais

Em nosso Herói existe algo marcante no seu modo de se vestir: sempre usa a inseparável jaqueta prateada com emblema de Escorpião dourado nas costas. Por isso daqui em diante o chamarei de “Scorpion”. Prosseguindo com a história, Scorpion consegue um emprego novo para dublar um filme graças a Shannom (Ron Perlman) dono de uma oficina de carros. No entanto ele também está envolvido com um dos poderosos chefes da máfia de Los Angeles e um dos mafiosos mais perigosos da cidade, Bernie Rose (Albert Brooks).

Com o decorrer da trama Scorpion se apaixona por Irene, uma jovem garçonete  e que acabou se envolvendo com o presidiário Standart Gabriel no passado e com quem teve um filho. Mas ao sair da cadeia Gabriel é ameaçado junto á sua família caso não pague o que deve, graças a proteção  que recebia enquanto detendo. O pequeno Benicio assiste o pai sendo espancado pelos meliantes no estacionamento e Scorpion retira da mão da criança uma bala que foi entregue a ele como aviso.

Compadecido com a situação, Scorpion decide ajudar Gabriel a se livrar da divida. Então ele acaba se envolvendo no plano de um assalto grande. Interessante é que o motorista tem sua próprias regras, ele não usa armas de fogo e não se envolve com o dinheiro ou a criminalidade em si, ele apenas dirigi. Um mero prestador de serviços.

Mais do que á sangue frio

Algo dá errado no golpe e Gabriel é morto durante uma emboscada. Scorpion foge com o dinheiro e uma cúmplice do plano, Blanche (Christina Hendriks). Após a fuga ele descobre que a mulher pretendia rouba-los também. Antes que eles pudessem fugir, assassinos surgem e matam Blanche. Aos poucos vemos que Scorpion possui uma facilidade para a violência e agressividade. Ao matar alguns dos capangas, percebemos sua praticidade e frieza para o assassinato.

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É preciso desfocar da fotogenia do Ryan para prestar atenção no texto

O ser humano como mercadoria, essa é a premissa que guia todo o filme. E sabemos agora porque Scorpion quer se livrar desse modo de vida, de barganhas e trocas. E o motivo é Irene , é ela que representa uma vida afetiva, uma forma simples e real de se viver. Mas agora a vida dela e de seu filho estão em perigo. E o escorpião dourado terá que dar um jeito nisso…

Scorpion acaba desvendando a rede por trás do assalto que liga seu chefe e o lideres mafiosos entre famílias judaicas envolvidas na máfia. Sendo assim, o que mais Scorpion deseja é salvar a vida de Irene e do menino. Agora os 1 milhão de dólares que o motorista carrega na bolsa, não valem a vida deles. Mas eu me pergunto, no mundo onde o dinheiro é simplesmente tudo, será que alguém irá compreender isso? Não.

A fábula do Escorpião e do Sapo

Com Scorpion como principal testemunha do assalto, os lideres querem ele morto. Mas nosso motorista não pretende ser facilmente abatido e começa a caçar a cabeça de cada um dos envolvidos. Mas ao chegar em Bernie, um homem poderoso e extremamente perigoso. Scorpion nos revela sua verdadeira personalidade ao desafiar Bernie por celular, citando a  fábula do sapo e do escorpião.

Nicolas Refn adora aplicar conceitos externos para explicar seus personagens e aqui não foi diferente ( Vide Apenas Deus Perdoa). A fábula então se inicia assim:

“Era uma vez um Escorpião que queria atravessar para a outra margem do rio, então pediu ao Sapo que o levasse até lá. O Sapo muito desconfiado, ainda disse:
Se eu te levar até lá corro o risco de ser picado por ti Escorpião.
O Escorpião
com muita lábia, disse ao Sapo: Não temas “amigo” Sapo. Se eu te picar nós dois morreremos afogados, por isso podes confiar em mim…
O Sapo pensou… pensou…e viu que até tinha uma certa lógica. Então resolveu ajuda-lo.
Porém, no meio da travessia, o Escorpião picou o Sapo que agonizante e sem acreditar virou-se e disse:
Então Escorpião, tu prometes-te que não me irias picar…! Agora ambos vamos morrer afogados!
O Escorpião, com os olhos incandescentes, ainda teve tempo de dizer:
Desculpa lá ó Sapo…Mas esta é a minha Natureza.”

Esta fábula de origem africana, nos revela a face do protagonista. O escorpião personificado pelo motorista assume sua essência violenta e malévola até as últimas consequências. Mas indo além disso, exibe também a possibilidade da existência do lado comportamental mais sombrio do ser humano.

Por fim…

A cena final acabou desenhando a fábula. Onde acontece a troca de golpes fatais entre Scorpion e Bernie através de punhais. Que acaba por ilustrar a queda do sapo e do escorpião, uma perfeita alegoria do homem contemporâneo. E enfim, temos uma trilha sonora inesquecível, além de um trabalho fotográfico esplendido e iluminação que só Nicolas Winding Refn consegue reproduzir. O quê posso mais dizer? Nada, tudo está lá e não é preciso nem mais um ponto!

No entanto… alguns podem até parafrasear os diversos filmes já consagrados e símbolos clichês e canônicos presentes no filme, mas Refn usa toda essa vasta “tranqueira” americana para justamente desconstruir e além disso instigar o senso crítico. O herói aqui não é moralista, é humano e está disposto a morrer e principalmente a matar, possuindo suas controvérsias. “Drive” é um filme que mereceu o prêmio de melhor direção com certeza. E Para quem não gosta ou acompanha os trabalho desse diretor pode não agradar tanto. Infelizmente ou não, haters gonna hate… : D

Referencias utilizadas:

Power of Stupidity, The Scorpion and the Frog, Giancarlo Livraghi.

http://web.mclink.it/MC8216/stupid/scorpion.htm

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