Crítica Clube da Luta

Clube da Luta

Sinopse

Em “Clube da Luta”, Jack (Edward Norton) é um executivo jovem, trabalha como investigador de seguros, mora confortavelmente, mas ele está ficando cada vez mais insatisfeito com sua vida medíocre. Para piorar ele está enfrentando uma terrível crise de insônia, até que encontra uma cura inusitada para o sua falta de sono ao frequentar grupos de auto-ajuda. Nesses encontros ele passa a conviver com pessoas problemáticas como a viciada Marla Singer (Helena Bonham Carter) e a conhecer estranhos como Tyler Durden (Brad Pitt). Misterioso e cheio de ideias, Tyler apresenta para Jack um grupo secreto que se encontra para extravasar suas angústias e tensões através de violentos combates corporais.

“Primeira Regra”

A frase “Primeira regra? Não  fale do clube da luta” desenha a premissa deste thriller psicológico de David Fincher. O Narrador (intitulado sendo como Edward Norton nos créditos finais) é o mal psicológico moderno encarnado. Ele representa o civil trabalhador comum de classe média americano que trabalha em um emprego que detesta só para saciar seus desejos mais mesquinhos e comprar coisas inúteis. Tyler Durden (Brad Pitt) é o seu alter ego, tudo aquilo que o narrador deseja ser mas na realidade não consegue ser. A partir disso o filme nos presenteia com um interessante ponto de vista social bizarro.

O narrador começa a questionar sua realidade a partir de fortes sintomas de insônia em seu trabalho. Daí ele começa a se viciar em grupos de auto ajuda de pessoas com doenças terminais alegando também ter uma. A partir disso ele consegue dormir e considera este vício como uma cura. No entanto em uma das sessões ele encontra Marla Singer (Helena Bonham Carter) que faz a mesma coisa que ele.

clube

Sabonete tem um forte simbolismo no filme. Além de destruição literal, representa a falta de estrutura nas relações humanas. Tudo é escorregadio.

O mal estar

Assim o gatilho do mal estar profundo do protagonista é novamente  ativado pois, para o Narrador ele estava fazendo algo original, algo real. Ele estava fora do sistema, ele não estava consumindo os grupos de auto ajuda como faz com tudo na sua vida. No entanto a personagem Marla venho justamente para lhe dizer ao contrário, que ele está mais uma vez consumindo a sociedade. “Sua mentira refletia sua própria mentira”

A situação de Marla é interessante, depressiva em último grau, busca o mesmo recurso “medicamentoso” que o Narrador e revela a contragosto dele que estão na mesma situação. A diferença é que Marla assumiu seu estado de miséria psicológica e ele não. O embate entre os dois, e até mesmo negociar dividir as sessões para não se encontrem, pareceu não surtir efeito. A existência de Marla desmascara a fantasia do narrador e é aí que ele vai partir para algo mais. O protagonista então conhece no avião Tyler ( Brad Pitt) um garçom, projetista de cinema e vendedor de sabonetes.  

Clube

O clube da luta como uma luta contra si mesmo diante de uma vida sem sentido.

Tyler descrê veemente do sistema capitalista e não vê sentido nele. Ao contrário do Narrador que está imerso na cultura do “ter” e não de “ser” alguma coisa. Em uma briga entre os dois, Tyler sugere que o prazer obtido da violência pode ser a saída para sair do sistema sem sentido que vivem e o Narrador começa a seguir suas teorias e montam o Clube da Luta. No clube homens se juntam em um roda para assistir brigas truculentas entre eles, e assim a  cada dia o clube ganha mais adeptos. A narrador e Tyler então vão morar em uma mansão caindo aos pedaços, lá eles trocam experiências que curiosamente são muito semelhantes.

Um Transtorno Grave

No decorrer do filme vamos tendo pistas de que na verdade o Narrador e Tyler são a mesma pessoa. Por exemplo, Marla e Tyler nunca estão juntos na mesma cena, o Narrador assume que as vezes Tyler fala por ele, Tyler também pede que não fale dele para ninguém, fora os sumiços repentinos de seu “amigo”. Aos poucos o Narrador começa a entender os motivos de sua amnésia, de estar em um lugar e não saber como tinha parado lá. Um recepcionista e Marla o chamam de Tyler e sua ficha finalmente cai.

Clube

Estrategias visuais foram muito bem executadas para mostrar o mundo interno e dual do protagonista.

Tudo estava fazendo sentido, as bombas caseiras feitas de sabonete, seu apartamento explodido, a relação com Marla, a ferida na mão causada por Tyler. Na verdade nunca houve clube algum, o que existe é um Narrador que se auto agredia constantemente. No final o embate entre o protagonista e seu alter ego é enfático, Tyler então resolve se revelar.

“Você queria um jeito de mudar a sua vida. Não podia conseguir sozinho. Tudo que quisera ser, este, sou eu. Eu pareço do jeito que quer parecer. Sou esperto, capaz, e mais importante, eu sou livre de todas as maneiras que você não é. […] As pessoas fazem isso todos os dias. Falam consigo mesmas, vêem-se como gostariam de ser, só não tem a sua coragem de, simplesmente, levar adiante. Você ainda se debate um pouco, é por isso que às vezes você ainda é você. […] Pouco a pouco, você está se transformando em… Tyler Durden.”

Na psicologia/psiquiatria existe um transtorno chamado Transtorno Dissociativo que de acordo com o CID 10 (Código Internacional de Doenças) este mal se define como:

O Transtorno Dissociativo de Identidade reflete um fracasso em integrar vários aspectos da identidade, memória e consciência. Cada estado de personalidade pode ser vivenciado como se possuísse uma história pessoal distinta, auto-imagem e identidade próprias, inclusive um nome diferente. Em geral existe uma identidade primária, portadora do nome correto do indivíduo, a qual é passiva, dependente, culpada e depressiva.

Fragmentado

O fato do protagonista possivelmente possuir o transtorno dissociativo e ter uma personalidade fragmentada nos remete a situações cotidianas de qualquer um. A doença foi usada como pano de fundo para nos imergir nos problemas do ser humano moderno. Ou seja, todos nós  desempenhamos diversos papeis na sociedade e encontramos conflitos entre eles.

O que o “Clube da Luta” representa é a luta diária de firmar esses papeis e legitima-los diante da realidade que pode não ser das melhores. Penso que o filme conseguiu trazer a mensagem que queria. Simplesmente me apaixonei pelos diálogos e montagens das cenas, fora o design implementado que ajudou no discurso verossímil da direção de Fincher de um visual frenético. Por fim, o Clube da Luta sem dúvida  é um filme que merece estar na sua instante e se ainda não o viu veja e reveja!

Fontes:  https://psicologado.com/psicopatologia/transtornos-psiquicos/transtorno-dissociativo-no-filme-clube-da-luta