Crítica Apenas Deus Perdoa

Crítica Apenas Deus Perdoa

Sinopse

Um homem (Ryan Gosling) vive um exílio em Bagkok durante dez anos, depois de ter matado um policial. Ele mantém um clube de boxe, que funciona como disfarce para o tráfico de drogas. Quando seu irmão é assassinado depois de matar uma prostituta, o protagonista recebe a visita de sua mãe (Kristin Scott Thomas), que pretende resgatar o cadáver do filho mais novo e vingar-se dos homens que o mataram.

Alegoria do Inferno

Este é um filme que com certeza tem como objetivo provocar seu público. Se o título insinua que apenas deus perdoa, pense de novo e puxe a poltrona! O filme impressiona muito, seja pela narrativa visual ou pela trilha sonora que aqui ganha uma dimensão mais que importante, é um item que acaba se tornando mais um “personagem” dentro da obra, ela é viva e intensa, se prepare!

Sou um pouco suspeito para falar dos filmes de Refn, acho esplendido como ele trabalha suas histórias e design de iluminação marcantes. Seu mais conhecido longa, Drive, lhe rendeu o prêmio de melhor diretor 2011 no Palma de Ouro. Seus filmes são muitas vezes mal falados pelo fato de usarem muitos símbolos polêmicos em sua narrativa e pouco dialogo. Na maioria das vezes seus personagens são desumanizados para se tornarem verdadeiras partes de uma alegoria simbólica.

Deus

Iluminação predominante em de tons de vermelho nos remete ao inferno.

Sua linguagem visual tem como de costume ausentar fala, dando ênfase nas ações de personagens monossilábicos, fato que pode irritar quem procura por filmes mais óbvios. As cenas normalmente são monótonas, mas nunca vazias de sentido, tudo é cautelosamente pensado, se você for atento perceberá. Os símbolos todos dialogam com a mensagem que o filme quer passar.

A culpa e a violência no divã 

Os principais temas discutidos no longa são: Culpa, violência, crise existencial, relações inter culturais, a banalização do outro, e para completar tudo isso, ainda teremos o olhar do Complexo de Édipo inserido nessa verdadeira salada diabólica. A trama gira em torno dos personagens Julian (Ryan Gosling) e Billy (Tom Burke) que são donos de um clube de boxe Tailandês, que também funciona como point de tráfico de drogas. Após Billy abusar de uma garota de menor, um policial aposentado, Chang, entra em cena para fazer justiça. A imagem de ordem (Todo poderoso, Deus?) é fortemente associada ao policial que tem uma ideia implacável do que é ser justo e não pretende errar Billy é um psicopata e vê as pessoas como um produto a ser utilizado e descartado, prova disso é seu comportamento com a menor que ele estuprou e matou em seguida. Portanto, seu prazer se dá nesse tipo de relação destrutiva e ele não busca nenhum pouco por perdão. 

Julian conhece Mai, umas das dançarinas tailandesas de um clube, e decide apresentá-la a mãe. Mais uma cena emblemática se dá no jantar, onde  vemos Crystal fazer duras críticas a garota em tom de menosprezá-la, em uma possível cena de ciúmes desproporcional e pouco maternal. Já o policial Chang funciona como uma espécie de “ordenador moral de todas as coisas” que com sua “espadona” extirpa o mal que o caos pode criar. Inclusive, várias vezes vemos flashes de seu braço segurando a espada, em uma alusão ao temido, poderoso e onisciente, o que nos remete novamente Chang sendo a imagem da ordem sobre o caos.

Deus

Mai rejeita a ideia de valer menos que um vestido!

Desejo e vingança

O sexo parece aqui entrar como um dissimulado propulsor da busca pelos desejos de cada um dos personagens, pois ele permeia todas as relações seja de compulsão (Billy) ou repressão (Julian). Billy buscava limite, Julian busca redenção, Chang a ordem e Crystal caoticamente o amor . Possivelmente todos eles estejam doentes de desejo, e lidam com sua crise existencial à sua maneira.

O desfecho do filme então não poderia ser outro, com truculência e vingança. Chang mata Crystal e depois é morto por Julian. Após observar a mãe morta na sala Julian se aproxima de Crystal ensanguentada e enfia o braço em seu útero (Alguém ligou pro Freud de novo?). 

Deus

Crystal representa o caos para seus filhos.

Luta contra Deus

De forma geral o filme acaba sem um clímax empolgante e talvez isso se deva ao fato do diretor ter feito isso intencionalmente a fim de provocar ou não uma desconstrução do mundo imaginário dos filmes de kung fu tradicionais. Para isso ele usou todo o jogo de símbolos ao seu favor, trabalhando seus demônios e dos personagens para discutir a ideia do que poderia ser ordem e convida ao público a discutir.

A fotografia exala contraste de luz e sombras inteligentes, com um vermelho predominante na iluminação. Refn é todo trabalhado em design conceitual, se você curte essa vibe veja mais filmes dele. As cenas de violência são tratadas quase como rituais minimamente pensados e com closes verossímeis.  

Deus

O rinque como pano de fundo do local para o combate contra “deus”

A trilha sonora foi selecionada magistralmente e endossa o clima nebuloso e violento das cenas. Atuações acompanham o jogo de olhares e ações com pouco diálogo,  clima tenso é o pano de fundo da narrativa. Em suma o longa não romantiza a violência em Bangok usado aqui apenas como pano de fundo.  No fim, “Apenas Deus Perdoa” venho com alcunha de filme de ação mas surpreende no final, soando mesquinho para alguns e formidável para outros, perdoe se quiser.