Crítica A Caça

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Mentira

Sinopse

Lucas (Mads Mikkelsen) trabalha em uma creche. Simpático e amigo de todos, ele tenta reconstruir a vida após um divórcio complicado, no qual perdeu a guarda do filho. Tudo corre bem até que, um dia, a pequena Klara (Annika Wedderkopp), de apenas cinco anos, diz à diretora da creche que Lucas lhe mostrou suas partes íntimas. Klara na verdade não tem noção do que está dizendo, apenas quer se vingar por se sentir rejeitada em uma paixão infantil que nutre por Lucas. A acusação logo faz com que ele seja afastado do trabalho e, mesmo sem que haja algum tipo de comprovação, seja perseguido pelos habitantes da cidade em que vive.

Compreensão

Este longa de Vinterberg precisa ser visto e interpretado com muito cuidado, preferível até que se veja mais de uma vez. O tema do filme é polêmico e pode desencadear más interpretações. Sabemos que hoje a sociedade tem a seu dispor diversos mecanismos midiáticos para expor casos de pedofilia no cotidiano (Além de leis a proteção a crianças, ONGS e serviços públicos ao combate a pedofilia) que cada vez mais assombra famílias mundo afora. Nem precisamos ir buscar tabelas percentuais de casos assim, basta ligarmos a TV  que veremos algum caso do tipo.

No entanto a questão é muitas vezes abordada por um viés sensacionalista extremo que escandaliza ainda mais a situação, impedindo uma maior compreensão do caso. E é justamente por falta de compreensão e a existência da mistificação que esse filme trará uma visão curiosa a respeito. É interessante ver como se optou fazer uma rápida análise dos perfis dos protagonistas inicialmente, o professor Lucas (Mads Mikkelsen) e a criança Klara (Annika Wedderkopp) antes de adentrar de fato na problemática do longa metragem. 

Mentira

Um homem que caça alces acaba caçado, essa é a premissa do filme.

Lucas é um professor de uma creche da comunidade, conhece a família da maioria delas e possui uma vida social mediana, mora sozinho com sua cadela Fanny, é divorciado, e trava uma batalha judicial pela guarda do filho Marcos (Lasse Fogelstrom) Tímido, é diversas vezes distante, mas possui uma incrível habilidade e paciência com crianças. Até aqui o telespectador é convencido que o professor da creche leva uma vida mais ou menos estável. Já a menina Klara mora com os pais e irmãos mais velhos. A criança demonstra ser uma garotinha muito observadora e atenta ao comportamento dos adultos. Possui um ótimo relacionamento de amizade com Lucas e sua cachorrinha, onde diversas vezes passeiam juntos onde conversam sobre diversas coisas.

O Escândalo

A medida em que Klara é apresentada, vemos que seus pais brigam constantemente, a criança quando não está na escola está sempre sozinha ou visitando a casa do professor. Além disso, seu irmão mais velho lhe expõe pornografia sem nenhum pudor enquanto conversa com amigos. Todos esses fatores combinados interferem diretamente na personalidade de Klara. Um dia ela resolve chamar a atenção do professor Lucas de forma bem diferente, lhe escreve um bilhete com a frase “Eu te amo” e coloca em seu bolso, enquanto sobe em seu colo e lhe rouba um beijo. Lucas atordoado pela situação, afasta a garota de si. Mas um detalhe no mínimo curioso é que ao invés de contar para a diretora sobre o ocorrido ou chamar os pais da garota para conversar, Lucas decide omitir o fato, decisão que vai pesar seriamente em sua vida daí em diante.

Mentira

Uma pequena mentira gera um grande escanda-lo.

Klara decide contar para a diretora que Lucas lhe mostrou suas partes íntimas. Decidida a apurar a situação, a diretora da creche, primeiramente age também com omissão. Depois parte para tentativa de dedução e só depois de não conseguir respostas conclusivas (Coisa que sozinha ela obviamente não ia conseguir) consulta um profissional  para questionar a menina. As questões feitas foram fechadas e extremamente conduzidas a partir da desconfiança tanto da diretora e aparente presunção do interrogador. É aí que constatamos que Klara não sabia muito bem o que estava fazendo.

Confusão premeditada?

Então só depois de Klara ter confirmado que havia sido molestada, mesmo após de ter negado primeiramente e parecendo estar confusa sobre o tema, a diretora convicta da “verdade” e de suas suspeitas chama a mãe da menina. Após espalhado o escândalo a situação se transforma em caso policial, e o nome de Lucas percorre rapidamente toda a comunidade como um homem perigoso. Mas voltemos um pouco aos acontecimentos passados e reparemos que a decisão de Lucas de não delatar a atitude da menina, permitiu com que ela mesma revelasse sua versão dos fatos o colocando como algoz da situação. Talvez sua falta de preparo para lidar com a questão da sexualidade infantil, a deficiência de informação por parte do município em tratar tais casos, e ainda pela grande omissão por parte das vítimas não revelar seu agressor ao redor do mundo, levou a comunidade a um estado de desinformação crítica.

Mentira

A vida de um professor inocente caçada por sua comunidade

A partir daqui o filme vai trazer grandes cenas emblemáticas que colocará em cheque as questões de ética e moral da comunidade. Por exemplo a data do natal, festa cristã (Pelo menos assim ensejada na tradição ocidental) que dissemina o amor ao próximo, o perdão e a compaixão em contraste com a atitudes hostis das pessoas para com Lucas que mesmo inocentado pela justiça não consegue mais sair na rua ou fazer compras sem ser agredido verbal e ou fisicamente. Klara revela a mãe que não foi agredida, e assume sua mentira. Mas a família interpreta como negação ou dificuldade de lidar com o acontecimento. A violência agora não é mais justificada por suspeitas, mas pela paranoia e auto convencimento de que Lucas é culpado.

Redenção

A cena em que Lucas banhado em sangue ao ser atingido por um funcionário do supermercado, nos revela resistência de seus próprios direitos ao retornar ao local e agredir o homem de volta. A questão da violência chega no limite onde nenhuma instância, nem mesmo a civil foi possível para solucionar o caso. Mas a pior violência foi a da grande maioria, com exceção de um amigo, namorada e filho de Lucas concordarem em acusar Luca, sem ao menos lhe dar a chance de se defender. Aliás, não havia provas, nem mesmo investigaram as outras crianças que começaram a acusar Lucas coletivamente.

Mentira

Um falso testemunho em um ambiente sem auto crítica pode gerar o caos.

Hipocrisia

Portanto, A Caça escancara o despreparo de todos ao lidar com uma questão tão séria, que é a falsa denúncia de abuso sexual. A “justiça” que funcionou na prática ali, não foi a dos tribunais, mas sim a da paranoia,  do medo, e do preconceito. É claro que devemos estar atentos a questão da culpabilidade da vítima, principalmente da mulher, inserida em uma sociedade machista e patriarcal. Mas sabemos que a sociedade recebe valores multifacetados e que nem sempre, apesar de pesquisas sobre diversos casos serem feitas, a maioria pode obscurecer casos como esse.  Em suma, o filme atenta para o fato de que se deve sempre preservar o princípio básico dos direitos humanos: que é a presunção de inocência.

Mentira

Direção do filme enfoca nas sensações dos personagens ao não saber lidar com a situação.

Em todo o mundo existem associações e organizações voltadas para casos como este, pessoas falsamente acusadas. No Brasil por exemplo se tem a AVFDAS( Associação de Vítimas Falsas Denúncias de Abuso Sexual) O estigma da pedofilia pela qual Lucas é atingido também afeta a vida social do filho, o que alarga ainda mais o escopo do problema. O final do filme pode surpreender, pois a comunidade com o tempo perdoa Lucas por aquilo que ele não fez. E duas cenas finais simbolizam esse paradoxo, a primeira é quando Klara precisa atravessar um cômodo onde o piso é xadrez mas de alguma forma não consegue atravessar (Fobia?), e surge Lucas para ajudá-la. O professor mesmo sendo acusado e quase linchado pela mentira da menina, ainda sim a perdoou mais facilmente. Ou que ainda com tantos dilemas a amizade dos dois continuou inocente e inabalável, acima do jogo social de preconceitos.

Autor

Tulio Cross
Tulio Cross

Formando em Museologia na UFMG. Se interessa pelas relações dos museus e cineclubes como espaços emblemáticos e patrimoniais. Ama filmes clássicos, jogos e música. Atualmente flerta com a Filosofia.


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