Cinediário #1: Queda da nobreza e contradições brasileiras

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Esse é o primeiro Cinediário onde irei recomendar filmes que estou vendo e fazer uma breve resenha (sem spoilers). Fiz isso pensando naqueles que não tem muito tempo para ficar procurando o que assistir nos finais de semana. Convenhamos, está cada vez mais difícil encontrar filmes de nosso interesse na internet, os alternativos, clássicos, etc. Muitas vezes, já tem lá na Netflix aquele Cult que você respeita, mas o catálogo não acompanha. Então minha gente, achei esse formato de diário perfeito para esse propósito quase que catalográfico . Então vamos lá:

A queda da nobreza em “O Leopardo” (1963), de Luchino Visconti

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Sinopse: É um premiado filme de 1963 do diretor italiano Luchino Visconti, baseado no romance homônimo de Giuseppe Tomasi di Lampedusa. Estrelado por Burt Lancaster, Alain Delon e Claudia Cardinale entre outros. O filme foi o vencedor da Palma de Ouro do Festival de Cannes, no ano de seu lançamento.

Sicília, durante o período do “Risorgimento”, o conturbado processo de unificação italiana. O príncipe Don Fabrizio Salina (Burt Lancaster) testemunha a decadência da nobreza e a ascensão da burguesia, lutando para manter seus valores em meio a fortes contradições políticas.

Comentários: Em tempos difíceis na Itália, Giuseppe di Lampedusa tentava publicar “O Leopardo”. Mas, foi graças a Visconti que sua obra encontrou holofotes. O livrou apareceu em 1958, passou por adaptações divididas em quatro partes, chamadas Boccacio70’ (tendo outros episódios dirigidos por Vittorio de Sica, Federico Fellini e Mario Monicelli) resultando posteriormente em uma grande adaptação final. Com certeza este é um filme ousado, e que tratou de ilustrar a decadência da classe aristocrática no ápice de sua queda.

Um momento histórico retratado com muita maestria, mas não menos polêmico, já que o filme foi além em sua crítica e deboche político. Visconti transgride o romance, e trata de detalhar a relação da nobreza com a nova classe social burguesa. Neste cenário, valores e contradições foram colocados na mesa. A figura do príncipe Salina é o retrato da resistência em deixar privilégios, enquanto busca sobreviver junto com sua família á nova realidade social.

Se por um lado tínhamos uma burguesia em ascensão, ávida pelo universo dos prestígios sociais, a nobreza precisava de meios de permanecer gozando de luxuria, influência e posição. No entanto, as mudanças trazidas pela revolução foram além do esperado e as fortes mudanças estruturais políticas trataram de mostrar isso. A nobreza então se viu encurralada e usou a arma que mais sabia usar: o seu charme.

A relação mantida de amizade entre o velho Leopardo, Fabrizio, e o seu sobrinho herdeiro Garibaldi, passou logo desenhar um quadro de oportunismo envolvendo uma linda e rica Angelica. Além das ótimas cenas de batalha, contamos com uma esplêndida ambientação, figurinos e som que nos imerge em uma data importantíssima para compreendermos a nova configuração política italiana.

Contradições brasileiras e a escravidão, importantes discussões no filme “Quanto vale ou é por quilo?” (2005), de Sergio Bianchi

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Sinopse: Uma analogia entre o antigo comércio de escravos e a atual exploração da miséria pelo marketing social, que forma uma solidariedade de fachada. No século XVII um capitão-do-mato captura um escrava fugitiva, que está grávida. Após entregá-la ao seu dono e receber sua recompensa, a escrava aborta o filho que espera. Nos dias atuais uma ONG implanta o projeto Informática na Periferia em uma comunidade carente. Arminda, que trabalha no projeto, descobre que os computadores comprados foram superfaturados e, por causa disto, precisa agora ser eliminada. Candinho, um jovem desempregado cuja esposa está grávida, torna-se matador de aluguel para conseguir dinheiro para sobreviver.

Comentários: Antes de tudo, é importante dizer que esse filme é muito rico em temas, portanto vou me ater a apontar os principais. De cara a questão da escravidão é o ponto de partida desta obra, mas o mais interessante é como que o diretor tratou disso, interligando suas conseqüências até os dias atuais. O papel do negro no Brasil é colocado em perspectiva o tempo todo, entre o passado e o presente. Com cenas oníricas, ele brinca com os comportamentos sociais e vai além. Pois, este filme denuncia de várias formas o racismo na sociedade brasileira. Seja no papel de servidão ainda delegado ao negro, seja na crueldade e injustiças sociais. Avançando em termos de estrutura social, as crianças tomam o protagonismo de forma que o filme analisa como o Estado lida com a situação de forma negligente e irresponsável.

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Nem preciso dizer da questão política, que consegue não fazer o mínimo e ainda piorar a situação de crianças em situações de miséria e vulnerabilidade social. De forma esplêndida, o filme traz um panorama social através de uma contextualização muito pertinente e escancara contradições graves ainda em pauta no nosso país. Um filme que serve perfeitamente como uma reflexão tão cara aos dias atuais.

Encerro dizendo que foram dois filmes excelentes, e que acabei descobrindo de “supetão” nas minhas pesquisas, acabando  que um tema complementou o outro. De um lado, temos a resistência em deixar privilégios em “O Leopardo”, e do outro temos no filme brasileiro, a miséria humana de políticos corruptos em buscá-los a todo custo.

Por hoje é só, nos vemos no próximo diário, ate lá : )

Referências das sinopses:

https://filmow.com/o-leopardo-t5694/

https://filmow.com/quanto-vale-ou-e-por-quilo-t6070/

Autor

Tulio Cross
Tulio Cross

Formando em Museologia na UFMG. Se interessa pelas relações dos museus e cineclubes como espaços emblemáticos e patrimoniais. Ama filmes clássicos, jogos e música. Atualmente flerta com a Filosofia.


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